Muitos estúdios brasileiros de jogos vivem quase inteiramente de prestar serviço para empresas estrangeiras: desenvolvem partes de um título, entregam o trabalho e recebem por hora ou por contrato fechado. É um modelo que sustenta a operação, mas raramente cresce junto com o sucesso do jogo lá fora.
Richard Lucas da Silva Miranda, fundador da LT Studios, publisher brasileira de jogos digitais com atuação no mercado de games e tecnologia, observa que essa lógica de encomenda explica boa parte da distância entre o talento reconhecido do setor nacional e o retorno financeiro que ele efetivamente capta. Quando o estúdio não é dono do jogo, o sucesso comercial vira ganho de outra empresa.
Por que prestar serviço para fora rende menos do que parece?
No modelo de trabalho por encomenda, o pagamento é fixado no contrato antes de o jogo existir. Se o título vender bem em outro país, o estúdio brasileiro que ajudou a construí-lo não recebe nada além do combinado. A receita recorrente, os relançamentos e as sequências ficam com quem detém a propriedade intelectual.
Esse arranjo tem vantagens reais: reduz risco, garante caixa previsível e serve como porta de entrada para equipes que ainda não têm capital para bancar um projeto próprio. O problema aparece quando ele vira destino final, e não etapa de um caminho mais longo. Um estúdio que só presta serviço constrói portfólio técnico, mas não constrói um ativo que continue rendendo depois que o contrato termina.
O que muda quando o estúdio vira dono do próprio jogo?
Quando o estúdio produz e mantém a propriedade intelectual do título, o jogo passa a gerar receita mesmo depois do lançamento inicial. Vendas continuadas, atualizações pagas, versões para novas plataformas e até licenciamento para outras mídias entram na conta. Richard Lucas da Silva Miranda descreve essa transição como o momento em que um estúdio deixa de vender tempo de trabalho para vender um ativo que se valoriza com o tempo.

A dificuldade está em bancar essa mudança. Manter uma IP própria exige capital para produzir sem contrato garantido, além de estrutura para lidar com distribuição internacional, contratos em moeda estrangeira e repatriação de receita, o que nem toda equipe pequena tem sozinha. É por isso que muitos estúdios brasileiros combinam os dois modelos: usam a prestação de serviço para manter o caixa girando enquanto desenvolvem, em paralelo, um projeto próprio de menor escala.
Como o publishing entra nessa conta?
É nesse ponto que entra a figura do publisher. Richard Lucas da Silva Miranda, fundador da LT Studios, avalia que a função de uma publisher brasileira nesse cenário é bancar parte do risco financeiro e cuidar da distribuição internacional, sem exigir que o estúdio abra mão da propriedade do jogo. Isso inclui negociar contratos de forma que a receita gerada lá fora volte ao Brasil com custo e burocracia menores.
Esse formato muda o cálculo para estúdios pequenos: em vez de escolher entre prestar serviço ou arriscar tudo sozinho, existe um caminho intermediário em que o desenvolvedor mantém o controle criativo e comercial do próprio jogo.
O que essa mudança sinaliza para o setor?
A escolha entre prestar serviço e construir IP própria deixou de ser só uma questão criativa. Ela define quanto valor um estúdio brasileiro consegue reter quando o jogo cruza fronteira. Um setor que amadurece é aquele em que cada vez mais equipes tratam a propriedade intelectual como ativo estratégico, não como luxo reservado a quem já tem orçamento grande.
Em síntese, Richard Lucas da Silva Miranda reforça que é essa mudança de mentalidade sobre o próprio trabalho, mais do que qualquer ferramenta nova, que decide se um estúdio vai crescer com a fama que constrói ou continuar financiando o sucesso de terceiros.

