Segundo o Doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, a automedicação com fitoterápicos no público idoso é um tema que merece espaço nas consultas com a mesma seriedade dedicada a qualquer outro remédio em uso. A crença de que produtos de origem natural são inofensivos permanece amplamente difundida, levando ao consumo frequente de chás, tinturas e suplementos sem a ciência do médico assistente. Essa prática invisível traz consequências clínicas reais, variando de interações medicamentosas perigosas a danos orgânicos diretos provocados pelas substâncias vegetais.
Nesta leitura, discutiremos como o uso de plantas medicinais pode representar riscos ao idoso, quais compostos exigem maior cautela, de que modo as interações com tratamentos convencionais acontecem e como o acompanhamento geriátrico atua para garantir escolhas seguras.
Por que o idoso usa fitoterápicos sem contar ao médico?
As razões são múltiplas e compreensíveis dentro do contexto cultural em que a maioria dos idosos brasileiros cresceu. A medicina popular com plantas medicinais é uma tradição transmitida entre gerações, especialmente nas regiões rurais do interior, onde o acesso à medicina formal era historicamente limitado e onde as plantas do quintal eram o recurso disponível para tratar a maioria dos adoecimentos cotidianos. Esse repertório cultural tem valor e precisa ser respeitado, mas também precisa ser avaliado criticamente à luz do que se sabe sobre farmacologia e sobre as especificidades do organismo do idoso.
A segunda razão é a falta de confiança para mencionar o tema nas consultas médicas. Muitos idosos temem ser julgados, ridicularizados ou repreendidos pelo médico se mencionarem que estão tomando chás ou suplementos naturais. Essa percepção, frequentemente baseada em experiências anteriores de descaso, os leva a omitir informações clinicamente relevantes que poderiam mudar completamente a interpretação de sintomas e a conduta terapêutica adotada.
Yuri Silva Portela ressalta que criar um ambiente de consulta em que o idoso sinta que pode falar sobre tudo que consome, incluindo fitoterápicos, chás, vitaminas e produtos de farmácia sem receita, é uma responsabilidade do profissional de saúde e não uma concessão. Essa abertura tem impacto direto sobre a segurança do paciente e sobre a qualidade da decisão clínica, especialmente num organismo que metaboliza substâncias de forma diferente e que frequentemente usa múltiplos medicamentos simultaneamente.
Quais fitoterápicos representam maior risco para o idoso?
Alguns fitoterápicos têm perfil de risco especialmente relevante para o idoso por suas interações documentadas com medicamentos de uso comum nessa faixa etária. A erva de São João, usada popularmente para depressão e ansiedade, é um dos exemplos mais estudados: ela induz enzimas hepáticas responsáveis pelo metabolismo de anticoagulantes, imunossupressores, antirretrovirais e muitos outros fármacos, reduzindo suas concentrações sanguíneas a níveis subterapêuticos e comprometendo seu efeito clínico de forma significativa.

O ginkgo biloba, amplamente usado como protetor cognitivo, tem efeito antiagregante plaquetário que pode potencializar o efeito de anticoagulantes e de anti-inflamatórios não esteroidais, elevando o risco de sangramentos em idosos que já usam esses medicamentos por outras indicações. A equinácea, usada para imunidade, pode interferir com imunossupressores. O alcaçuz em grandes doses eleva a pressão arterial. O gengibre em quantidades elevadas tem efeito anticoagulante. A lista é longa e frequentemente desconhecida tanto pelos idosos quanto pelos profissionais que os atendem.
Conforme destaca Yuri Silva Portela, as plantas do sertão merecem atenção específica no contexto das comunidades do interior nordestino. Plantas como a aroeira, o jatobá, a catingueira e o marmeleiro, entre muitas outras, têm uso medicinal tradicional na região e compostos bioativos que podem ter interações com medicamentos convencionais que ainda não foram completamente estudadas. A ausência de estudos não é garantia de segurança, especialmente para o organismo do idoso, que tem menor margem para lidar com interações inesperadas.
Quais danos diretos os fitoterápicos podem causar ao organismo do idoso?
Além das interações medicamentosas, alguns fitoterápicos têm toxicidade direta sobre órgãos que já estão mais vulneráveis no idoso. A hepatotoxicidade é o risco mais documentado: diversas plantas medicinais, incluindo algumas comumente usadas no Brasil, têm compostos que causam dano hepático que pode evoluir de forma assintomática por meses até que a lesão já seja significativa. O idoso com função hepática já reduzida pelo envelhecimento tem menor capacidade de compensar essa agressão adicional.
A nefrotoxicidade de algumas plantas é outro risco relevante para o idoso com função renal comprometida, situação muito comum na terceira idade. Plantas com aristolóquias, oxalatos em excesso ou taninos em concentrações elevadas podem agravar a função renal de forma progressiva, sem produzir sintomas que alertem o idoso ou sua família para o problema em andamento.
Para Yuri Silva Portela, a solução não é proibir o uso de plantas medicinais, mas integrá-lo ao cuidado médico de forma informada e segura. Identificar o que o idoso usa, avaliar as possíveis interações com seus medicamentos, orientar sobre doses seguras e contraindicações e monitorar funções hepática e renal em idosos com uso regular de fitoterápicos são condutas que transformam um risco em uma prática que pode ser mantida com segurança.
O cuidado que inclui o que o idoso já usa é um cuidado mais completo
A automedicação com fitoterápicos no idoso não vai desaparecer com proibições ou com julgamentos. Ela vai diminuir quando os profissionais de saúde criarem espaço para essa conversa e quando os idosos sentirem que podem compartilhar o que usam sem medo de represália, conforme conclui Yuri Silva Portela. Esse diálogo aberto é parte do cuidado verdadeiramente humanizado que o idoso merece, transformando a consulta em um encontro genuíno de saberes e de respeito às suas tradições.
Se o idoso que você ama usa chás ou plantas medicinais, informe o médico na próxima consulta. Essa informação pode prevenir interações perigosas e garantir que o cuidado que ele recebe seja seguro e completo para o seu organismo.

