Fóssil achado em rodovia pode ser de espécie de Titanossauro descoberto nos anos 2000, diz paleontólogo


Descoberta paralisou parcialmente por dois meses as obras de duplicação na Rodovia Dona Leonor Mendes de Barros (SP-333), no trecho entre Marília e Júlio Mesquita. Processo de extração do fóssil foi finalizado na tarde desta segunda-feira (26). Pedra onde está o fóssil será retirada nesta segunda-feira na rodovia entre Marília e Júlio Mesquita
Fernanda Marion / TV TEM
O paleontólogo Willian Nava acredita que fóssil achado durante obras de duplicação da Rodovia Leonor Mendes de Barros (SP-333), entre Marília e Júlio Mesquita (SP), seja uma parte do fêmur de um Titanossauro. Fragmentos de um dinossauro dessa mesma espécie foram descobertos na mesma região entre os anos de 2009 e 2012.
A nova descoberta interrompeu parcialmente por dois meses as obras de duplicação da rodovia – a paralisação ocorreu apenas no local do achado. O processo de extração do fóssil do talude onde ele foi achado foi finalizado no fim da tarde desta segunda-feira (26).
De acordo com o paleontólogo, a descoberta reforça a ideia de que os dinossauros, especialmente do período Cretáceo, que foi o último da era desses animais gigantes, viveram na região centro-oeste paulista.
“Esse fóssil é mais um testemunho da existência dos dinossauros na nossa região. Nós tivemos aqui próximo um esqueleto quase parcial de um Titanossauro e essa descoberta desse osso isolado, embora seja isolado, é uma confirmação de que de fato esses animais viveram na nossa região há 70 milhões de anos”, explica.
Fóssil de dinossauro é encontrado durante obras em rodovia no interior de SP
Os titanossauros eram herbívoros, tinham o pescoço bastante alongado e eram quadrúpedes.
“Eles variavam de tamanho entre 9 e 10 metros até 20, 25 metros de comprimento e habitavam todo o hemisfério sul e particularmente na região de Marília e Presidente Prudente temos vários registros desse tipo de dinossauro, indicando que eles pastavam nessa região e viviam em manadas.”
O fóssil foi encontrado há cerca de dois meses a 20 metros da superfície e a poucos centímetros da lateral de um talude. A descoberta não foi divulgada antes para não atrair a presença de curiosos, que poderiam danificar o material.
Em um cuidadoso processo de escavação, que começou com talhadeira e martelo, os paleontólogos retiraram a formação rochosa no entorno do fragmento até que fosse possível usar uma ferramenta de perfuração de impacto mínimo, para evitar qualquer trinca que prejudicasse a peça.
Obras foram paralisadas apenas no trecho onde o fóssil foi encontrado, na região de Marília
Fernanda Marion/ TV TEM
“Para ele ter parado aqui é possível que as águas de um rio podem ter desmembrado esse esqueleto e esse pedaço foi fossilizado nesse talude. É um trabalho grande para retirar ele da rocha, porque ele está encravado no talude, então tivemos que desmontar bastante do talude para conseguir retirar”, afirma o geólogo Nilson Bernardi.
Envolvido em uma dura camada de arenito – rocha formada por areia aglutinada e cimento natural, densa como quartzo – o exemplar, ainda nessa forma bruta, deve chegar nesta terça-feira (27) para o Museu de Paleontologia, onde será limpo, em um processo que levará mais algum tempo.
Extração da pedra que envolve o fóssil será concluída nesta segunda-feira na região de Marília
Fernanda Marion/ TV TEM
Terra de fósseis
Essa não é a primeira descoberta de fósseis em Marília. Há 12 anos, uma primeira parte de um Titanossauro foi descoberta pelo paleontólogo Willian Nava. Foi encontrado uma escápula de um Titanossauro, de 80 centímetros, próximo ao distrito de Padre Nóbrega.
Outras descobertas foram feitas em 2009 e desde 2012 o “Dino Titan”, apelido do fóssil, ficou exposto na museu de paleontologia da cidade. O dinossauro é famoso no museu e também na televisão, foi ele que inspirou a novela da TV Globo, Morde e Assopra em 2011, que conta a história de uma paleontóloga que vai ao interior de São Paulo em busca dos animais pré-históricos.
Escavação indica indícios de vida há 65 milhões de anos na região de Marília
TV TEM/Reprodução
Em 2015, os ossos do Titanossauro foram levados para Universidade de Brasília (UnB) para serem comparados aos de outros dinossauros. Mais da metade do esqueleto do dinossauro estava preservada. Foram achadas parte do pescoço, vértebras das costas e da cauda, costelas e fragmentos do crânio, da bacia e das patas.
A ossada foi levada para um laboratório do campus de Planaltina para estudos. O grupo estima que ele tenha pesado 10 toneladas e atingido 15 metros de comprimento. O estudo vai ser encerrado com duas réplicas do dinossauro: uma para a Universidade de Brasília e outra para ser exposta no Museu de Paleontologia de Marília. Já o material será devolvido e ficará guardado na coleção do memorial.
Paleontólogo explica que osso deve pertencer a um titanossauro, espécie herbívora que viveu no centro-oeste paulista
Okayama University of Science/AFP
Em 2016, ossos de crocodilo, de titanossauro e um dente de dinossauro foram recentemente encontrados em uma área de rochas. Nava passou cerca de três meses pesquisando a existência de fósseis no local e se deparou com os indícios de vida há aproximadamente 65 milhões de anos. As três peças encontradas pelo paleontólogo foram retiradas de um barranco de cerca de 20 metros de altura.
A região de Marília fica em um planalto recortado por erosões que criaram escarpas rochosas ao longo de milhões de anos, algumas com centenas de metros de profundidade, formando paisagens semelhantes a mini canions.
Tem cachoeiras que despencam em meio às rochas de arenito datadas do período cretáceo superior, que de acordo com estudos geológicos teriam uma idade entre 65 e 70 milhões de anos. O que explica porque nesses sedimentos se encontram fósseis e são portadoras de uma rica fauna de vertebrados e invertebrados fósseis.
Tesouros históricos
Equipe de pesquisadores preparando fósseis no Museu de Paleontologia de Marília, em 2019, quando chegaram descobertas de Presidente Prudente
Mariana Agostinho/Arquivo pessoal
O museu de paleontologia de Marília tem em exposição de fósseis de dinossauros e crocodilos que vem sendo coletados desde 1993 pelo paleontólogo William Nava, em campanhas de campo pela região.
Desde o início essas descobertas chamaram a atenção tanto do público quanto de universidades, e assim, em 25 de novembro de 2004 a prefeitura, por meio da secretaria municipal de cultura e turismo, inaugurou o museu de paleontologia de Marília. Em 2020, o museu recebeu descobertas de fósseis feitas em Presidente Prudente.
Infelizmente uma parte das descobertas da cidade se perderam no incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro no dia 2 de setembro de 2018. Entre as descobertas consumidas pelas chamas estavam o crocodilo pré-histórico Marilia Succhus, que viveu na região há 70 milhões de anos e um dos fósseis mais perfeitos já descoberto, e o fragmento de mandíbula de Titanossauro, único do Brasil, descoberto nos anos 2000.
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