Entre Igrapiúna e Ituberá, no Baixo Sul da Bahia, seringais e fragmentos de Mata Atlântica dividem a mesma paisagem há décadas. Na avaliação de Alfredo Moreira Filho, empresário, fundador e management do Grupo Valore+, cuja trajetória começou justamente nessa região, a história da borracha natural no sul baiano é um exemplo de como ciência, produção e conservação podem caminhar juntas quando há planejamento de longo prazo.
A seringueira, árvore nativa da Amazônia, encontrou na costa baiana condições que permitiram sua exploração comercial, algo que se tornou difícil na própria floresta de origem. Entenda, nos parágrafos a seguir, por que isso acontece, como os seringais da região se desenvolveram e que lições esse modelo oferece.
Uma árvore amazônica que enfrenta dificuldades na Amazônia
A borracha natural, extraída do látex da seringueira, foi um dos produtos mais valiosos da economia brasileira no fim do século XIX e início do século XX. Esse ciclo, porém, perdeu força quando sementes levadas da Amazônia deram origem a grandes plantações no Sudeste Asiático, que passaram a dominar o mercado mundial.
Quando se tentou cultivar a seringueira em larga escala no Brasil, surgiu um obstáculo: o mal-das-folhas, doença causada por um fungo que ataca as folhas da árvore e se espalha com facilidade em ambientes muito úmidos, como a floresta amazônica.
A doença raramente mata a planta diretamente, mas a deixa tão enfraquecida que a produção se torna inviável. Segundo Alfredo Moreira, essa história mostra como fatores biológicos podem redefinir o mapa econômico de uma cultura inteira.
Seringais no Baixo Sul baiano
O sul da Bahia se tornou uma das alternativas para a produção nacional de borracha. Entre Igrapiúna e Ituberá, um seringal que pertenceu à Firestone foi adquirido pela Michelin, que passou a manter na região uma área de cerca de 9 mil hectares para abastecer suas fábricas no país. A localidade tem raízes antigas: Ituberá surgiu no século XVII como posto ligado à missão jesuítica de Camamu, com economia baseada na mandioca.
Mesmo na Bahia, o mal-das-folhas continuou sendo uma ameaça, o que levou a empresa a investir em melhoramento genético para obter variedades mais resistentes. O trabalho envolve milhares de polinizações por ano e testes em campo, em parceria com instituições de pesquisa como a Embrapa e a Ceplac. Na análise de Alfredo Moreira Filho, esse esforço revela o peso da pesquisa aplicada para manter viável uma atividade agrícola de ciclo tão longo.

Produção e floresta lado a lado
A partir do início dos anos 2000, a empresa criou o programa Ouro Verde Bahia, voltado a testar um modelo de produção de borracha natural que estimulasse a economia regional e preservasse a biodiversidade. Parte do projeto envolve o incentivo a pequenos produtores para o plantio de variedades melhoradas de seringueira.
Dentro desse programa nasceu a Reserva Ecológica Michelin, que protege cerca de 3,9 mil hectares de Mata Atlântica nos municípios de Igrapiúna e Ituberá, a aproximadamente 140 quilômetros de Salvador. A área foi ampliada com a incorporação de antigos seringais experimentais e inclui a Reserva Particular do Patrimônio Natural Ouro Verde.
O projeto prevê o plantio de dezenas de milhares de árvores de mais de cem espécies e foi reconhecido por uma organização empresarial internacional como referência em restauração ambiental. Conforme pondera Alfredo Moreira, iniciativas assim mostram que a conservação pode ser parte da estratégia de negócio, e não apenas uma obrigação legal.
O que o modelo mostra para a região?
A experiência do Baixo Sul indica que produção agrícola e proteção ambiental não precisam ser excludentes. A floresta preservada abriga espécies raras da Mata Atlântica, enquanto os seringais geram renda e empregos em municípios com poucas alternativas econômicas.
Para a agricultura familiar, a seringueira oferece uma vantagem específica: a extração do látex pode ser feita durante grande parte do ano, garantindo receita mais regular do que culturas de safra única. O desafio está no tempo de espera, já que a árvore leva anos até começar a produzir. Para Alfredo Moreira Filho, a lição principal do caso baiano é que resultados duradouros dependem de visão de longo prazo, combinando pesquisa, gestão e respeito ao território.

