Mãe e filho com microcefalia morrem de Covid em intervalo de 18 dias: 'Sentiu a morte do filho', diz irmã


Neucy Prudente, de 45 anos, morreu dias depois do filho Gabriel, que também não resistiu à doença, em Botucatu (SP). Mãe deixou outros seis filhos. Neucy morreu de Covid 18 dias depois que o filho, de 11 anos, havia morrido pela doença em Botucatu
Neiva Prudente/Arquivo pessoal
Ninguém sabe ao certo quem foi o primeiro membro da família de Neucy Prudente a se infectar com a Covid-19. Em sua casa moravam ela, o marido e três dos sete filhos do casal, que também foram contaminados. No entanto, apenas ela e o filho Gabriel Prudente, de 11 anos e que tinha microcefalia, evoluíram para o quadro grave da doença e não resistiram.
Neiva Prudente, irmã de Neucy, contou ao G1 que ela foi internada na tarde do dia 25 de abril e, na madrugada do dia 26, Gabriel passou muito mal, convulsionou e foi levado ao hospital.
A família havia feito o teste para a doença, mas o do menino deu negativo. Apesar disso, no hospital foi descoberto que ele também estava com o coronavírus e foi imediatamente internado.
Gabriel tinha microcefalia, fazia uso de oxigênio e tinha os movimentos comprometidos. Segundo Neiva, a saúde dele era debilitada e Neucy tinha receio de que ele se contaminasse com a Covid, já que sabia que, por sua condição, ele poderia não resistir.
“Ela tinha muita consciência de que, se fosse infectado, ele teria poucas chances. Não sabemos exatamente quem se infectou primeiro. Eles moram em uma casa e têm uma oficina na frente, que é onde o pai do Gabriel trabalhava. Eles tinham feito a testagem e o Gabriel deu negativo, mas ela deu positivo.”
Gabriel tinha microcefalia e morreu depois de quatro dias de internação no HC de Botucatu
Neiva Prudente/Arquivo pessoal
Segundo a irmã, apenas dois dias depois de fazer o teste de Covid, Neucy começou a se sentir muito mal e precisou procurar o pronto-socorro da cidade. Ela foi internada na enfermaria do local, onde não tinha leito, e lá ficou por cinco dias.
“Ela estava sendo mantida no PS, não tinha ido para o hospital no leito de Covid. Ela estava com oxigênio por alguns dias consciente, sem ser intubada”, lembra Neiva.
No mesmo período em que Neucy estava no pronto-socorro, Gabriel também tinha sido internado, mas no Hospital das Clínicas da Unesp de Botucatu. Ele ficou na unidade do dia 26 até o dia 30 de abril, quando não resistiu e morreu por conta do coronavírus, como conta a tia.
“A gente acredita que ele sentia a falta dela. Ele começou a convulsionar em casa e, até então, para a família toda, ele estava negativo. Mas, quando ele começou a passar muito mal, ele foi internado e em quatro dias ele faleceu.”
Sentiu a morte do filho
O quadro de Neucy foi agravado justamente no dia 30 de abril e a família acredita que ela tenha sentido a morte do filho. A irmã lembra que os médicos recomendaram que eles ainda não contassem à paciente sobre a morte de Gabriel, já que a dor da perda poderia fazer com que ela piorasse, mas não adiantou.
Neucy tinha 45 anos e deixou outros seis filhos e o marido em Botucatu
Neiva Prudente/Arquivo pessoal
Diante da situação, a família fez um apelo nas redes sociais para que a prefeitura providenciasse uma vaga no hospital, já que no PS não havia leitos. Neucy foi transferida para a UTI de um hospital particular no dia 30 de abril.
“No dia que ele faleceu, nós não contamos, porque o médico não deixou e ela começou a apresentar uma piora. Então, começamos a fazer uma campanha na internet para que, por favor, arrumassem uma vaga para ela”, conta Neiva.
Um dia depois de ser internada na UTI, Neucy piorou ainda mais e foi intubada durante 15 dias. A dona de casa ainda acabou se contaminando com uma bactéria, enfrentou uma infecção, precisou de hemodiálise e teve falência dos rins. Após 25 dias internada, ela morreu em 18 de maio.
Família em luto
A morte de Neucy tão próxima da morte de Gabriel foi um choque para toda a família. Segundo Neiva, a filha mais nova de Neucy, Ana Laura, de sete anos, ainda chora de saudade da mãe e não entende o que aconteceu.
“Ela diz que não quer estrelinha, que quer a mãe para abraçar, beijar. Ela era uma mãe carinhosa, cuidadosa demais. A gente acha até que de alguma maneira ela sentiu a morte do Gabriel.”
Os quatro filhos mais velhos agora tentam se organizar para amparar Ana Laura, mas também a outra irmã de 20 anos que morava com a mãe e estava grávida. Ela teve sua filha enquanto Neucy estava intubada e a avó não teve chances de conhecer a neta.
“Ela estava cuidando dela e de tudo para a netinha nascer e estar tudo prontinho. A netinha dela nasceu dia 6 de maio e ela estava intubada, inconsciente, e meu sobrinho [filho de Neucy] fez um áudio para colocarem para ela ouvir dizendo que a família estava em casa, porque quem sabe isso pudesse ajudar a dar força para ela.”
Neucy e o filho de 11 anos morreram depois de dias internados com Covid em Botucatu
Neiva Prudente/Arquivo pessoal
Apesar da espera da família, Neucy e Gabriel não conseguiram resistir às complicações da doença e voltar para casa. Agora, todos tentam enfrentar essas perdas e precisam lidar com uma nova realidade.
“Ela sempre foi uma pessoa muito lutadora, muito guerreira, fazia de tudo pelos filhos. A gente tinha muita esperança de que tudo iria passar e ela iria voltar. Sabíamos que seria um sofrimento enorme pela perda do Gabriel, mas sabíamos que ela iria se recuperar.”
‘Foi por tão pouco’
Segundo Neiva, o estudo sobre a efetividade da vacina de Oxford/AstraZeneca, realizado pela Unesp com a Universidade de Oxford, que está fazendo uma vacinação em massa na população adulta de Botucatu, poderia ter salvado Neucy, mas não deu tempo.
“Foi por tão pouco. Se fosse há um mês, não teria tido essa perda. Nós agradecemos muito a Deus por ter tido essa oportunidade de tomar a vacina, mas ficamos tristes por ela não ter conseguido.”
Neiva ainda se emocionou ao falar da irmã e alertou, principalmente os jovens, sobre a gravidade da pandemia de coronavírus na região.
“Eu estou acabada, porque nós éramos próximas, ela era uma pessoa muito amiga, querida. Peço para os jovens tomarem cuidado, para os adolescentes não estarem indo fazer festa, tomar cuidado nesse momento que está abrindo tudo, bar e tudo. Tomem cuidado, a doença está aí, ela é invisível e é perigosa”, alerta Neiva.
*Colaborou sob supervisão de Júlia Nunes e Ana Paula Yabiku
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