Jovem do interior de SP é aprovado em universidade de música na Áustria e faz campanha para realizar sonho


Felipe Bueno Baldo, de 21 anos, toca violino desde os 6 anos e conseguiu uma vaga na conceituada Universidade de Música e Artes de Viena – “Musik und Knust”. Curso terá duração de 4 anos e ele precisa de ajuda para as despesas iniciais. Bauruense Felipe Bueno Balda faz campanha para conseguir estudar em universidade de música da Áustria após ser aprovado
Felipe Bueno Baldo/ Arquivo pessoal
A música sempre soou familiar para Felipe Bueno Baldo, bauruense que toca violino desde os 6 anos. Aos 21 anos, ele conquistou uma vaga para estudar em uma das universidades mais importantes do mundo na área, a Universidade de Música e Artes de Viena – “Musik und Knust”, na Áustria.
No entanto, apesar de estar poupando dinheiro há alguns meses para conseguir embarcar nessa nova aventura, Felipe e sua família não têm condições financeiras de arcar nem mesmo com as despesas iniciais da viagem. Por isso, ele está fazendo uma campanha na internet para conseguir arcar com as despesas iniciais.
“Preciso chegar em Viena em agosto porque vai ter um festival lá e eu preciso me organizar na cidade. As aulas começam no segundo semestre, em setembro. Eu também não tenho bolsa, ainda não abriram e quando abrirem vou tentar conseguir. Por isso, estou fazendo a vaquinha. Não é para o valor completo, é pra eu conseguir ficar lá por 6 meses. E depois que eu estiver lá eu posso tocar no metrô, conseguir um trabalho. O valor dos 4 anos é bem mais alto”, explica.
A conquista ainda nem parece realidade para Felipe, que já realizou diversos sonhos ao longo da sua trajetória. Sonhos que nem imaginava viver. Hoje, ele faz parte da Orquestra Sinfônica Jovem do Estado como bolsista e se apresenta na icônica Sala São Paulo, lugar que desejava apenas ter a oportunidade de conhecer na adolescência.
“Eu fiquei durante todo um ano me preparando para prestar essa bolsa. Estudei muito, aprendi alemão. Prestei a prova, deu certo e eu passei. Eu ainda não estou nem acreditando que eu passei, eu não tinha a visão de que isso aconteceria na minha vida, eu só tinha o sonho de colocar o pé na Sala São Paulo e assistir uma orquestra.”
Trajetória na música
O desejo de entrar no universo da música foi despertado em Felipe pela observação. A mãe, Laudiene Bueno Baldo, toca flauta, o pai Fábio Alexandre Baldo é saxofonista. Quando ele expressou sua curiosidade pelos instrumentos, ainda aos 6 anos, foi incentivado a tocar violino para participar da banda da igreja junto com os pais.
“Quando eu tinha 6 anos e queria tocar tuba e tudo o que eu via e me disseram que estavam precisando de violino na banda da igreja em que meus pais tocavam. A partir daí eu aprendi e comecei a tocar nos cultos de jovens também”, conta Felipe
“Eu comecei a tocar na igreja, desde muito novo. Meus pais tocavam na igreja, meu pai, sax, minha mãe, flauta. Meus pais ouviam música o dia inteiro, tanto da igreja quanto em casa. Ouviam clássicas, MPB. Sempre tive esse ambiente musical em casa e surgiu a vontade de tocar algo.”
Felipe Bueno aos 8 anos ao lado do irmão (com a flauta) e do seu primeiro professor de violino, na igreja
Felipe Bueno Baldo/ Arquivo pessoal
Felipe começou a tocar na Orquestra Sinfônica de Bauru com 11 anos participando de projetos e eventos. Chegou a integrar também as orquestras de Lins (SP) e Botucatu (SP), mas a experiência que o fez mudar de cidade pela música aconteceu quando tinha 15 anos e entrou para a Orquestra do Conservatório Dramático de Música de Tatuí (SP).
“Com 15 anos eu entrei para o Conservatório Dramático de Música de Tatuí e comecei a estudar com a Graziela Pagoto de 2015 a 2017. Toda segunda-feira eu pegava um transporte oferecido pelo governo a todos os estudantes do projeto. Saíamos 4h de Tatuí e passávamos o dia estudando lá. Foi então que eu prestei pra Orquestra da cidade de 2016 a 2017 e passei a morar lá por um ano sozinho para estudar.”
Violinista toca desde os 6 anos e já se apresentou nas orquestras de Bauru, Lins e Botucatu durante a adolescência
Felipe Bueno Baldo/ Arquivo pessoal
A convivência com outros músicos fez com que ele se interessasse em fazer parte da Orquestra Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo. As oportunidades que poderia ter na capital chamaram a atenção do violinista, assim como as aulas do maestro e diretor, Claudio Cruz.
Felipe começou a se dedicar ainda mais aos estudos de música e decidiu que prestaria o processo seletivo em 2018 e se mudaria para a capital.
“As pessoas sempre comentavam que em São Paulo tinham aulas boas, professores bons. Eu comecei a assistir o Claudio Cruz e queria tocar pra ele. Então, eu entrei na Orquestra Sinfônica Jovem do Estado com uma bolsa de estudos. Meu plano era entrar nessa orquestra em 2018 e eu queria fazer com certeza de estar preparado e passar. Me preparei na orquestra de Tatuí e passei”, conta com entusiasmo.
Além da orquestra, ele fundou com os amigos de São Paulo o “Quarteto Atorá”, no qual tocam música de cordas, gênero preferido de Felipe. Os músicos já gravaram até mesmo em estúdio.
“Esse sempre foi meu sonho. Fundamos o quarteto, fizemos gravações em estúdio, consertos online e vamos finalizar alguns projetos ainda este ano. Eu consegui realizar um sonho que eu achei que realizaria com uns 30 anos. Com isso, a vontade de fazer música aumentou mais ainda”, fala Felipe.
Conquista de mais um sonho
A determinação do bauruense fez com que ele conseguisse ir além até mesmo do que imaginava. Integrando a orquestra na capital desde 2018 e se mantendo com a bolsa, eventos, saraus e apresentações no metrô, a ideia de estudar na Europa foi cogitada durante a participação no Festival de Música Ilumina com a violinista Jennifer Stumm no início de 2020.
“O Ilumina é um festival de música de câmara, um festival pequeno, de 20 pessoas, que acontece em uma fazenda. O mais legal é que como é pequeno, os professores ficam no mesmo lugar que ficamos e essa convivência e os aprendizados me fizeram pensar que posso chegar em um lugar bom. Saí mais apaixonado ainda e falei ‘é isso que eu quero da minha vida! Eu não sei onde eu vou, como vou, mas quero isso’ ”, conta.
A famosa violinista nova-iorquina Jennifer Stumm, que mantém o projeto aqui no Brasil, é professora na universidade de Viena e foi quem incentivou e ajudou Felipe a se preparar para prestar a prova e estudar na Áustria.
“Quem estava me ajudando com tudo era a Jennifer Stumm e o projeto dela que me alavancaram pra eu conseguir. Ela me passou o nome de alguns professores para eu pesquisar e eu tinha muita vontade de ir pra Europa. Foi então que eu vi o trabalho do Boris Brovtsyn e pensei ‘é ele!’. Eu me identifiquei muito com o trabalho dele e decidi que queria estudar com ele. Aí eu descobri que o Boris dava aula em Viena que é o mesmo lugar que a Jennifer dá aula também.”
A preparação para prestar as provas da universidade durou um ano e Felipe chegou a desanimar com a pandemia. Mas foi incentivado e conseguiu a vaga. Além de ser aprovado, o jovem ainda teve a surpresa de conseguir ser aceito para ter aulas com Boris.
“Eu tive que começar a estudar alemão, que é a língua utilizada nas aulas. Eu comecei a me preparar financeiramente, musicalmente e coloquei na minha cabeça que iria fazer a prova em 2021. Veio a pandemia e eu fiquei mal, desanimado e a Jennifer me motivou a continuar e estudar. A Jennifer me disse que seria difícil eu entrar na sala do Boris e eu mandei um e-mail para ele. Ele respondeu e disse que gostou muito de mim, mas que não seria o professor certo pra mim. Passou o tempo, chegou o e-mail e eu fiquei muito feliz porque eu fui aprovado no curso e na sala dele. Foi uma grande conquista.”
As aulas começam no segundo semestre deste ano, no mês de setembro, mas em agosto Felipe já quer estar em Viena para participar de um festival de música que vai acontecer na cidade. Depois de tanta determinação e estudos, a realização do sonho dele agora depende da colaboração de pessoas com a sua campanha. E ele já tem novos sonhos para o futuro.
“Eu estou muito agradecido e muito feliz por ter conquistado isso. Eu sempre vejo que é só o começo. Acho que eu nunca vou chegar e dizer que não preciso mais fazer aula. Eu sempre vou ter que evoluir e aprender. No futuro, eu tenho o sonho de montar um festival de música de câmara no Brasil para levar a música para mais pessoas na periferia, montar consertos”, diz o jovem violinista.
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*Sob supervisão de Paola Patriarca
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